Muitas pessoas acreditam que, para se obter bons retornos no longo prazo, é preciso sempre encontrar e investir nas melhores oportunidades do momento. Por mais que essa seja uma boa premissa, acredito que é muito mais importante saber analisar e evitar investimentos ruins. Afinal, o mercado está repleto de opções que, à primeira vista, podem parecer promissoras, mas que, ao longo do tempo, revelam-se ruins e ineficientes.
Existem dois principais fatores que explicam a escolha de investimentos ineficientes por algumas pessoas: a falta de conhecimento/informação e a grande quantidade de produtos disponíveis no mercado.
Se a educação financeira ainda é muito limitada no Brasil, quem dirá o conhecimento sobre produtos de investimento. Sem o entendimento necessário para avaliar corretamente os riscos e o potencial de retorno de cada tipo de investimento, algumas pessoas apenas acompanham cegamente as recomendações de alguns gerentes de banco ou assessores, recomendações estas que às vezes não são as melhores.
Além disso, com o desenvolvimento do mercado financeiro brasileiro, também surgiram uma grande quantidade de produtos diferentes, milhares de fundos de investimento, títulos de crédito privado e produtos mais complexos, como derivativos e criptomoedas. Com tantas opções à disposição, a falta de orientação adequada faz com que algumas pessoas escolham investimentos ineficientes.
Características dos investimentos ruins e ineficientes
No passado, os investidores enfrentavam um cenário muito diferente do atual, o mercado brasileiro era marcado pela baixa concorrência entre as instituições financeiras e, consequentemente, apresentava poucas opções de investimento. Os grandes bancos dominavam o mercado, oferecendo apenas seus próprios produtos e fundos, limitando as alternativas de investimento para o público em geral. Investimentos mais sofisticados, como fundos independentes, ações e aplicações no exterior, eram acessíveis apenas a pessoas com altos patrimônios.
Esse ambiente mais restrito impedia que o investidor médio tivesse acesso a uma gama diversificada de produtos e estratégias financeiras. Os bancos aproveitavam para cobrar altas taxas de gestão em fundos de investimento e altas comissões nos seus produtos e serviços Muitos dos investimentos que veremos a seguir se popularizaram nessa época, por volta dos anos 2000.
Atualmente, com o maior acesso a informações, esses produtos vêm sendo cada vez menos utilizados, principalmente entre as gerações mais novas.
De forma geral, os investimentos que considero como ruins ou ineficientes possuem os seguintes fatores em comum:
- Retornos desproporcionais ao risco: Quando o risco envolvido em um investimento é muito alto para o retorno potencial. Se o investimento tem grande volatilidade ou risco de perda sem oferecer um retorno adequado, é um mau negócio;
- Custos excessivos: Taxas de administração, corretagem ou outros custos altos podem corroer o retorno do investimento, tornando-o ineficiente em relação a alternativas mais baratas;
- Baixa liquidez: Se o investimento não pode ser facilmente convertido em dinheiro sem perda significativa de valor, pode se tornar um problema em momentos de necessidade;
- Complexidade desnecessária: Investir em um produto complexo e com mais custos quando existe um produto similar mais simples e com menos custos.
Vamos agora verificar alguns dos produtos de investimento que considero ruins e ineficientes e que, por isso, precisam de cautela por parte dos investidores.
Poupança
Como mencionei anteriormente em outro artigo, a poupança é um dos piores investimentos disponíveis no mercado, coincidentemente também é o mais popular. Atualmente, mais de R$ 1 trilhão estão aplicados na poupança. No último artigo, não explorei em detalhes os motivos que a tornam tão desfavorável, vamos analisá-los abaixo:

1- Remuneração abaixo da taxa de juros (Selic)
A rentabilidade da poupança é atrelada a taxa de juros, mas de forma desfavorável ao investidor. Ela sempre será inferior à taxa de juros básica da economia (Selic). De acordo com a regra atual, quando a Selic é igual ou inferior a 8,5% ao ano, a poupança rende apenas 70% da Selic + TR (Taxa Referencial), que atualmente está próxima de zero. Quando a Selic estiver acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês + TR, o que equivale a aproximadamente 6,17% ao ano, mais a Taxa Referencial.
Isso significa que, mesmo em períodos em que os juros estão elevados, a poupança oferece uma rentabilidade significativamente menor do que outros investimentos simples que são atrelados à taxa Selic ou ao CDI.
Por exemplo, enquanto o Tesouro Selic e um CDB de um banco possuem uma rentabilidade muito próxima da taxa Selic, a poupança rende uma fração disso. No longo prazo, isso pode corroer o seu poder de compra já que em alguns períodos essa rentabilidade não é suficiente nem para repor a inflação.
2- Rentabilidade calculada uma vez por mês sobre o menor valor
Sabemos que nos demais investimentos de renda fixa nossa rentabilidade é calculada diariamente em cima do montante investido. Na poupança essa regra não se aplica. Os rendimentos da poupança são creditados somente uma vez por mês, na data de aniversário da aplicação. Isso significa que, se você realizar uma aplicação no dia 1° de janeiro e, resgatar sua aplicação antes do dia 1° de fevereiro, perderá completamente os juros acumulados nesse período.
Além disso, a poupança rende apenas sobre o menor valor disponível durante o mês. Ou seja, se você aplicar R$ 10.000, mas em algum momento do mês sacou R$ 1.000, o rendimento será calculado apenas sobre R$ 9.000, mesmo que o saldo tenha voltado a subir após o saque.
Fundos Cambiais
Fundos cambiais te possibilitam ter exposição a moedas estrangeiras, normalmente Dólar. O retorno de um fundo cambial vem predominantemente da valorização ou desvalorização da moeda em que o fundo está exposto. Se o Dólar subir, você ganha, se cair, você perde, simples assim. A ideia por trás dos fundos cambiais é servir como proteção para investidores que possuem dívidas ou compromissos em moeda estrangeira, como importadores ou empresas que fazem negócios no exterior.
Perceba que, atualmente, não faz nenhum sentido investir em fundos cambiais. Por que você pagaria uma taxa de gestão para um fundo que apenas compra dólares? Se você quer ter exposição ao Dólar você pode abrir uma conta internacional nos grandes bancos e corretoras e comprar a moeda, não é necessário pagar uma taxa de gestão para isso.
Pior ainda é que, ao investir nos fundos cambiais, você não receberá nenhum juros, pois você não está “investindo” em nada, você está apenas comprando dólares. Hoje em dia é muito simples investir diretamente no mercado americano, comprar dólares e investir em títulos públicos americanos. Investindo em títulos americanos você pelo menos recebe juros no período da sua aplicação.
Fundos Monoativos
Fundo monoativo é um tipo de fundo de investimento que investe em apenas um ativo, podendo ser uma ação, um imóvel ou qualquer outro ativo. Dessa forma, não existe uma diversificação de ativos como vemos na maioria dos outros fundos de investimento atualmente no mercado.
Um dos principais tipos de fundos monoativos é o de ações. Eles surgiram principalmente porque, até meados de 2006, investir diretamente na bolsa de valores era um processo complexo e caro para o investidor comum. Naquela época, adquirir ações por meio de um fundo oferecia uma solução mais simples e econômica, já que permitia o acesso ao mercado de forma menos burocrática, em comparação com a compra direta de ações.
Atualmente, não é mais necessário recorrer a fundos monoativos de ações, já que investir diretamente na bolsa de valores se tornou muito mais simples e acessível. Pagar uma taxa de gestão para um fundo que investe em apenas uma ação deixou de fazer sentido. Se você deseja adquirir uma ação específica, basta acessar o seu home broker e comprá-la diretamente. Investir em apenas uma ação por meio de um fundo sempre resultará em uma rentabilidade menor do que se você comprar a ação diretamente no home broker, porque você não precisará pagar a taxa de gestão.
O segundo tipo de fundo monoativo que ainda é utilizado é o de fundos imobiliários. Nesse caso, eles investem em apenas um imóvel. Investir em um fundo que possui apenas um imóvel normalmente não costuma ser um bom negócio, isso é devido à falta de diversificação, o que aumenta o risco ao concentrar-se em um único imóvel. Problemas como vacância, queda no valor do imóvel ou dificuldades com o inquilino podem ter um grande impacto na rentabilidade do fundo. Além disso, esses fundos costumam ter uma baixa liquidez e menor flexibilidade para ajustes, tornando-os mais vulneráveis.
COE
Esse é o produto que os gerentes de banco e os assessores adoram vender. COE é uma sigla para “Certificado de Operações Estruturadas”, ele é, basicamente, um pacote que pode conter títulos públicos, produtos de renda variável e operações com derivativos.
Esse produto te possibilita ter exposição à renda variável, porém, na maioria das vezes ele é ofertado com uma cara de “renda fixa”. Isso acontece porque muitos COEs possuem o chamado “capital protegido”. Nesse caso, se a parte de renda variável do investimento não der certo (as ações caírem no período, por exemplo) o investidor recebe seu dinheiro aplicado de volta, mas sem nenhum rendimento nem correção pela inflação.
É importante lembrar que, se um investimento não foi corrigido pela inflação do período, ele te gerou um prejuízo e não foi um bom negócio. Pior ainda é que a maioria dos COEs possui um prazo longo de vencimento, de 3 a 5 anos e não tem liquidez.
De acordo com um estudo da FGV, 9 em cada 10 COEs têm retorno esperado abaixo do que poderia ser o ganho no Tesouro Direto.
Vamos verificar os principais pontos que tornam esse um péssimo produto:
- Complexidade: Os COEs são produtos complexos e difíceis de entender. Eles envolvem derivativos, estratégias sofisticadas com ações e cláusulas específicas que podem ser difíceis de entender.
- Retorno limitado: Apesar da proteção de capital ser atrativa para um investidor desavisado, os COEs também limitam os retornos potenciais, ou seja, mesmo que as ações se valorizem muito no período, o investidor pode não capturar todo esse ganho. Geralmente eles possuem um “teto” de ganho, por exemplo “limitado a 50% no período”.
- Liquidez limitada: Esse é um produto que possui uma liquidez baixíssima. Se você precisar resgatar antes do vencimento muito provavelmente vai ter um grande prejuízo.
- Custos elevados: Lembra que eu disse que os gerentes de banco e os assessores adoram vender esse produto? Isso acontece porque os COEs possuem uma das maiores comissões no mercado. Quando você compra um COE, seu gerente do banco ou seu assessor já embolsa uma comissão gorda de 5 a 11% do valor investido.
Levando todos esses pontos em consideração, não faz nenhum sentido investir em COEs. Esse produto só existe para gerar comissões para bancos e assessores. Se você quiser ter exposição à renda variável, compre ações ou invista em fundos. E, na próxima vez que te oferecerem um COE, pergunte quanto é a comissão ou o “spread” que ficará com o banco ou a corretora.
BDR’s
BDRs singificam “Brazilian Depositary Receipts”, são basicamente recibos lastreados em ações de empresas estrangeiras que têm capital aberto em outros países. Esses recibos são negociados na bolsa brasileira e te possibilitam investir de maneira indireta em ações estrangeiras.
Preste atenção no termo “investir de maneira indireta em ações estrangeiras”, isso porque você está negociando um recibo e não a ação em si.
Não vamos entrar em detalhes em como esse investimento funciona, mas, basicamente, instituições financeiras brasileiras adquirem ações estrangeiras e as mantém sob custódia. Posteriormente, emitem BDRs lastreados nessas ações, disponibilizando-os no mercado brasileiro para investidores locais.
Apesar dos BDRs possuírem algumas vantagens, como a simplicidade de investir, oferecendo uma maneira prática de aplicar em ações estrangeiras sem a necessidade de abrir contas internacionais, e a transação em reais, que dispensa a compra de dólares e o envio de dinheiro para o exterior. Acredito que eles tenham muito mais desvantagens, tais como:
- Opções limitadas: Apenas uma fração dos ativos listados na bolsa americana estão disponíveis na forma de BDRs.
- Baixa liquidez: BDRs de algumas grandes empresas americanas possuem uma liquidez elevada. Porém, para a maioria das outras empresas a liquidez ainda é muito baixa, negociar esses ativos pode fazer com que você precise pagar um valor acima do seu valor justo.
- Taxas: As instituições financeiras que emitem os recibos cobram uma taxa adicional de 3 a 5% em cima de todo o dividendo recebido via BDR.
- Posse das ações: Você está adquirindo e negociando um recibo e, por mais que seu preço acompanhe as variações da ação, você não é um acionista da empresa.
- Risco Brasil: Ao investir em BDR, seu dinheiro continua no Brasil, investindo através de uma conta internacional você manda seu dinheiro para o exterior e ajuda a mitigar o risco país.
Caso você queira negociar alguma ação específica de uma grande empresa americana que possui alta liquidez através de um BDR, talvez não seja tão ruim assim. Porém, existem opções mais interessantes.
Vale mais a pena abrir uma conta internacional e acessar diretamente o mercado americano por completo, além de diminuir o risco país da sua carteira, você também ganha mais opções de investimento. Caso queira deixar seu dinheiro no Brasil, pode fazer mais sentido investir em um ETF dolarizado que segue o S&P 500.
Conclusão
Investir o seu dinheiro de forma inteligente e eficiente é a melhor maneira de gerar riqueza e aumentar seu patrimônio no longo prazo. Embora o mercado financeiro ofereça inúmeras oportunidades, ele também esconde armadilhas que podem prejudicar seriamente o seu patrimônio.
Como vimos nesse artigo, investimentos ruins e ineficientes normalmente apresentam um retorno desproporcional ao risco, possuem custos excessivos, baixa liquidez e uma complexidade desnecessária. Sempre se atente a esses pontos, verifique se não há um investimento similar com melhores condições. Busque sempre entender aquilo que você está investindo. Se você não consegue entender o investimento ou o produto, não invista. Não fazer nada é melhor do que ter um prejuízo.
Apesar de ter trazido somente 4 exemplos de produtos e investimentos ruins, o mercado possui diversos ativos ruins, o seu discernimento é fundamental para o seu sucesso.
E você, caro leitor, já tinha investido em algum desses produtos? Qual foi o seu pior investimento? Deixe seu comentário abaixo!
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